Entre 2021 e Julho de 2026, as entidades públicas portuguesas contrataram 612 estudos e projectos de saneamento, a 208 entidades diferentes. Cento e quarenta e cinco desses contratos mencionam ETAR — e neles aparece um padrão: quando o objecto diz que intervenção se pretende, fala três vezes mais de estações existentes do que de estações novas, 55 contra 16. Remodelação, reabilitação, ampliação. Nos restantes 80, o objecto não chega para decidir.

Faz sentido. O parque está instalado há vinte ou trinta anos, foi dimensionado para uma população e uma carga que entretanto mudaram, e chega agora ao ponto em que os equipamentos pedem substituição ao mesmo tempo que as exigências de descarga apertam.

Remodelar uma ETAR em funcionamento é, tecnicamente, mais difícil do que construir uma nova. Há cinco decisões que se tomam nas primeiras semanas de projecto, quando ainda custam pouco, e que condicionam vinte anos de exploração.

1. Qual é, de facto, o caudal a tratar

A primeira tentação é dimensionar pela população servida. É quase sempre errado.

O caudal que chega a uma ETAR raramente corresponde ao que a rede devia transportar. Em redes com décadas, uma parte substancial do que entra é água que não devia lá estar — infiltração pelo solo através de juntas e fissuras, e água pluvial de ligações indevidas que ninguém registou. Em dias de chuva, essa parcela pode multiplicar o caudal afluente.

Dimensionar a remodelação sem primeiro medir o que realmente chega, e em que condições, é dimensionar para um número que não existe. A campanha de medição de caudais em tempo seco e em tempo de chuva custa uma fracção do projecto e muda-o por completo.

A pergunta a fazer: o projecto assenta em caudais medidos ou em caudais calculados a partir da população?

2. O que se faz com a estação a funcionar

Uma ETAR não pára. O efluente continua a chegar todos os dias enquanto a obra decorre, e o licenciamento de descarga continua a aplicar-se.

Isto não é um detalhe de estaleiro — é uma condicionante de projecto. Determina se a remodelação se faz por fases, se é preciso um by-pass provisório, se há tratamento temporário, e em que ordem as linhas são intervencionadas. Um projecto que não resolva a faseação está a empurrar o problema para o empreiteiro, que o vai resolver da forma que lhe for mais conveniente — e a apresentar trabalhos a mais.

A pergunta a fazer: o projecto define a sequência de intervenção com a estação em serviço, ou remete isso para o plano de trabalhos da empreitada?

3. A obra de entrada, que é onde tudo começa a correr mal

É a parte menos vistosa da estação e a que mais compromete o resto. Gradagem, remoção de areias, remoção de gorduras: se falha aqui, as areias vão para os digestores, desgastam bombas, ocupam volume útil e obrigam a limpezas que ninguém orçamentou.

Nos contratos publicados há projectos dedicados exclusivamente à obra de entrada e a caixas de retenção de areias, em estações que já tinham sido intervencionadas. São poucos — dois, entre os 612 — mas cada um é uma estação onde o pré-tratamento ficou de fora à primeira.

A pergunta a fazer: a remodelação inclui o pré-tratamento, ou assume que o existente aguenta a nova carga?

4. Onde é que a energia se vai

O arejamento é, na generalidade das estações de lamas activadas, o maior consumo individual — tipicamente a maior parcela do consumo energético da estação. E é também onde uma remodelação pode ganhar mais, porque a tecnologia de difusão e de controlo mudou muito desde que a maioria destas estações foi construída.

A eficiência energética deixou de ser um extra e passou a ser um dos motivos da remodelação. Há contratação dedicada a substituição de compressores e a estudos de equilíbrio energético em estações existentes — rara nos objectos dos contratos publicados, o que diz mais sobre o que cabe num título do que sobre o que se compra.

Mas há uma ordem certa: primeiro corrigir o caudal e a carga, depois dimensionar o arejamento. Optimizar o arejamento de uma estação que trata água de infiltração é comprar eficiência para tratar aquilo que não devia lá estar.

A pergunta a fazer: o projecto quantifica o consumo específico por metro cúbico tratado, antes e depois?

5. Para onde vai o efluente tratado

Durante décadas a resposta foi «para a linha de água». Deixou de ser a única.

A água residual tratada tem hoje enquadramento próprio como água para reutilização — rega de espaços verdes, lavagem de arruamentos, usos industriais, e usos internos da própria estação. Há contratos de projecto para infra-estruturas de elevação e adução de ApR a partir de ETAR existentes — cinco, entre os 612.

Isto muda o projecto: exige qualidade de tratamento diferente conforme o uso final, uma rede de distribuição própria, e um licenciamento específico. Decidir mais tarde significa refazer.

A pergunta a fazer: o projecto avalia a reutilização como opção, ainda que para a rejeitar com fundamento?


O ponto

Nenhuma destas cinco decisões é do projectista. São de quem contrata — e o projectista executa dentro do que o caderno de encargos definir.

Quando não são tomadas explicitamente, tomam-se por omissão. E a omissão custa sempre o mesmo: o que sai mais barato no projecto sai mais caro na exploração, durante os vinte anos seguintes.


A IdroAM Water Engineering elabora e revê projectos de remodelação de estações de tratamento de águas residuais. Se está a preparar um caderno de encargos, fale connosco.

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